Uma prática antiga, com regras novas
A ozonioterapia é o uso médico de uma mistura de oxigênio (O₂) e ozônio (O₃) em concentrações controladas. Durante muito tempo, foi divulgada no Brasil com uma lista ampla de indicações e vias de aplicação, boa parte sem respaldo científico. Em 28 de agosto de 2025, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução nº 2.445/2025, que revogou a Resolução 2.181/2018 e definiu de forma restrita o que passa a ser reconhecido como prática médica.
Este artigo explica o que é a ozonioterapia, o que a resolução autoriza, o que continua experimental e o que considerar antes de iniciar.
O que é o ozônio medicinal
O ozônio é uma molécula formada por três átomos de oxigênio. Na medicina, é produzido por geradores específicos a partir de oxigênio puro, em concentrações e volumes calibrados. Trata-se de um agente oxidante reativo: em contato com os tecidos, exerce ação antimicrobiana (sobre bactérias, fungos e outros microrganismos) e efeito modulador sobre processos inflamatórios da região em que é aplicado.
Essa mesma reatividade é o motivo de a ozonioterapia exigir equipamento adequado e via de aplicação correta. Inalado, o ozônio é tóxico para as vias aéreas — por isso a via inalatória não é uma via terapêutica.
O que a Resolução CFM nº 2.445/2025 autoriza
A resolução reconhece a ozonioterapia apenas como terapia adjuvante — complementar ao tratamento padrão, nunca em substituição a ele —, sempre precedida de diagnóstico médico, e somente nas situações abaixo:
- Feridas — úlcera de pé diabético, úlcera arterial isquêmica, ferida infecciosa aguda e úlcera venosa crônica, exclusivamente por via tópica: bolsa de ozônio (ozone bagging), óleo ozonizado ou pomada ozonizada.
- Osteoartrite de joelho — por injeção intra-articular.
- Dor lombar por hérnia de disco — por injeção paravertebral ou intradiscal, realizada apenas em ambiente hospitalar e apenas por médico com registro de qualificação de especialista (RQE) em anestesiologia, neurocirurgia, ortopedia, radiologia intervencionista ou dor.
A resolução determina ainda que a aplicação siga protocolos assistenciais baseados em evidência, com registro em prontuário e consentimento do paciente.
O que continua experimental
O texto do CFM é direto: "Não há evidências no momento de uso de ozonioterapia por via intravenosa, retal, inalatória e estética". Isso inclui a chamada auto-hemoterapia (ozonização do sangue com reinfusão), a insuflação retal e as aplicações com finalidade estética. Essas vias permanecem no campo experimental — só podem ser realizadas dentro de protocolos de pesquisa aprovados por comitê de ética, e não como serviço oferecido ao paciente.
O motivo é a ausência de estudos de qualidade suficiente para demonstrar benefício e segurança. Indicações que antes eram divulgadas com frequência — fadiga, "imunidade", doenças autoimunes, diabetes, infecções de repetição, disbiose, fibromialgia ou "inflamação sistêmica" — não constam entre as autorizadas.
O uso em câncer e em feridas neoplásicas é vedado fora de pesquisa clínica.
Como é a aplicação nas indicações autorizadas
Via tópica em feridas
Na bolsa de ozônio, o membro ou a região da ferida é envolvido por uma bolsa vedada, na qual a mistura de oxigênio e ozônio circula por alguns minutos, em concentração definida pelo médico; ao final, o gás é aspirado pelo próprio equipamento. Óleo e pomada ozonizados são aplicados diretamente sobre a lesão, em geral entre as trocas de curativo. Em todos os casos, a ozonioterapia é um complemento ao tratamento da ferida — controle da doença de base, desbridamento, curativos e controle de infecção — e não o substitui.
Injeção intra-articular no joelho
A mistura é injetada dentro da articulação do joelho, em procedimento realizado com antissepsia, por médico habilitado. Complementa o tratamento da osteoartrite, que continua tendo como base exercício, controle de peso, fisioterapia e medicação quando indicada.
Sempre complementar, nunca primeira escolha isolada
Em nenhuma das indicações a ozonioterapia é o tratamento principal. Ela se soma ao tratamento padrão, depois que o diagnóstico está estabelecido e quando o médico entende que há espaço para o adjuvante. Um paciente com úlcera de pé diabético precisa, antes de tudo, do controle da glicemia, da avaliação vascular e do cuidado com a ferida; um paciente com osteoartrite de joelho precisa da avaliação ortopédica e do plano de reabilitação.
Riscos, efeitos adversos e contraindicações
Como qualquer procedimento, a ozonioterapia tem efeitos adversos possíveis. Os mais relatados são dor no local da aplicação, reação inflamatória transitória e, nas injeções, risco de infecção no sítio da punção. Entre as contraindicações descritas na literatura estão hipertireoidismo descompensado, deficiência de G6PD (favismo) e gestação. Condições associadas, medicações em uso e o estado da pele ou da articulação também entram na decisão.
A indicação depende de avaliação médica
Se a ozonioterapia faz sentido em um caso específico é uma decisão que só pode ser tomada em consulta: com diagnóstico definido, revisão do tratamento em curso e avaliação das contraindicações. Não é um procedimento que se escolhe por conta própria nem que se contrata como pacote.
Na Clínica Habitus
Na Clínica Habitus, a ozonioterapia é oferecida por via tópica, para feridas, e por injeção intra-articular, nas indicações previstas na Resolução CFM 2.445/2025, sempre após avaliação médica, como parte do plano de tratamento.

